António de Vasconcelos referia in Correio de Coimbra nº 492, de 14/11/1931 (citado Arquivo da Universidade de Coimbra – António Vasconcelos Perpetuado nas páginas do “Correio de Coimbra” 1922-1941, 2020, p. 186-187)

Há nas proximidades da serra da estrela , uma aldeiazita muito modesta, de gente boa, simples, ordeira e laboriosa. É conhecido este povo pelo nome de S. Paio de Gramaços. Os seus habitantes, no meado do século XIX, viviam uma vida tranquila e quase patriarcal, entregues aos labores da agricultura e do pastoreamento de gados, e ainda ao exercício da pequenas indústrias caseiras. Os homens, na sua maior parte, eram canastreiros ou cesteiros, as mulheres tecedeiras; mas todos cultivavam as suas glebas, ou próprias ou de renda, e só nos intervalos das ocupações agrícolas é que se entregavam aos trabalhos industriais domésticos.
Mendicidade era coisa completamente desconhecida na localidade. Uns remediados, outros pobres, viviam do seu trabalho satisfeitos, pois com pouco se contentavam. Se, por vezes, ocorria alguma necessidade superveniente, alguma doença, alguma impossibilidade para o trabalho, a vizinhança cristamente acudia solícita a remediar o mal, nunca havendo lugar a que o necessitado, ou a família, precisasse de sair, aq estender a mão à caridade pública.
Em dois períodos, este viver sossegado e tranquilo tinha sido perturbado: primeiro pela invasões francesas, que algumas vítimas aqui fizeram; depois pelas lutas políticas, que causaram estragos e inquietações. Em breve porém tudo se recompôs, tudo voltou à mesma vida quieta e pacífica.
Podiam contar-se, e não excediam talvez uma dúzia, as pessoas capazes de letra de forma; e, diga-se de passagem, nem mesma a gente do povo sentia a falta que a carência de tal prenda lhes fazia. Para cultivarem a sua gleba , apastarem as suas ovelhitas, fazerem os seus cestos ou ordenarem as suas teias, nenhuma necessidade tinham de saber ler e escrever; para serem vogais da junta de paróquia, a mais nobre das situações sociais a que poderiam aspirar, também se dispensava semelhante prenda. Como o pároco presidente sabia ler, nada mais era necessário. As atas das deliberações, e os termos de aprovação das contas de gerência, as quais podiam ascender, quando muito, à importância de algumas dezenas de mil réis, eram lavradas pelo secretário, cujas funções, por vezes, o próprio presidente acumulava, e a seguir firmadas por indecifráveis garatujas, ou pelas respeitáveis cruzes ds sinais dos honrados membros.”